
Juliana Camargo e Andressa Simão, da CNN Brasil, São Paulo
Picanha sobe e poder de compra cai com movimento que começa nas fazendas • Taste Atlas
Depois de se tornar um dos principais símbolos da campanha presidencial de 2022, a picanha pode voltar ao centro do debate eleitoral em 2026. Mas, diferente da queda registrada no início do governo atual, a nova alta dos preços não está ligada diretamente à política econômica. O principal fator é a virada do ciclo pecuário, que reduziu a oferta de gado para abate e elevou o preço da carne bovina.
Levantamento exclusivo da consultoria Safras & Mercado para o CNN Agro - com preços entre janeiro de 2023 e junho de 2026 - mostra que o quilo da picanha, corrigido pela inflação medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor), fechou o mês de junho cotado a R$ 72,38.
O pico de preço foi registrado em janeiro de 2026, quando o corte nobre atingiu a maior cotação da série analisada: R$ 77,27.
Na comparação anual a alta é de 10,8%. Em junho de 2025 o quilo da picanha custava R$ 65,28 (em valores deflacionados).
Quando Lula prometeu, durante a campanha de 2022, que o brasileiro voltaria a comer picanha, o país vivia um cenário de inflação elevada, renda pressionada pelos efeitos da pandemia de Covid-19 e da guerra na Ucrânia e perda do poder de compra.
Em abril daquele ano, o IPCA acumulava alta de 12,1% em 12 meses, tornando o churrasco um artigo de luxo para muitas famílias.
A redução dos preços, que começou em 2023 e se intensificou em 2024, realmente aconteceu. Mas especialistas afirmam que ela foi consequência principalmente do ciclo pecuário e não de uma política específica para reduzir o preço da carne.
Quando o boi gordo alcança preços elevados, pecuaristas ampliam os investimentos na produção de bezerros e na retenção de matrizes.
Com o passar dos anos, a oferta desses animais aumenta, os preços da reposição caem e muitos produtores passam a abater mais fêmeas. Esse movimento amplia a disponibilidade de carne bovina no mercado e pressiona as cotações para baixo.
Foi exatamente o que ocorreu entre 2023 e 2024, período marcado por um volume recorde no abate de vacas e novilhas, elevando a oferta de carne no mercado interno e tornando o churrasco mais acessível.
Agora o cenário é o inverso. Com menos matrizes disponíveis, após o forte abate dos anos anteriores, a oferta de animais para frigoríficos diminuiu, impulsionando os preços do boi gordo e da carne bovina.
Mesmo com os reajustes do salário mínimo, o consumidor perdeu capacidade de compra.
A queda dos preços entre 2023 e 2024 estimulou o consumo interno
Segundo dados do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos), o consumo doméstico de carne bovina no Brasil cresceu 7,8% entre 2022 e 2023 e mais 2% em 2024.
Dados da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) mostram que o consumo atingiu 38 quilos por habitante, o maior nível desde 2014.
O movimento, porém, começou a se inverter em 2025. Com a retomada da alta dos preços, o consumo recuou cerca de 9%, passando para 31,9 quilos por pessoa, refletindo o impacto da carne mais cara sobre o orçamento das famílias.
Embora a tendência estrutural seja de preços elevados, o mercado pode registrar um breve período de acomodação nos próximos meses
A desaceleração das exportações brasileiras para a China, após o esgotamento da cota de importação de 2026, combinada com a entrada no mercado dos animais terminados em confinamento, deve ampliar temporariamente a oferta de carne no mercado interno.
Esse movimento já começa a aparecer no varejo. Levantamento da Apas, Associação Paulista de Supermercados, mostrou que o preço da picanha caiu 0,55% em junho, no estado de São Paulo.
Para Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado, esse recuo deve ser passageiro.
"A alta nos preços das carnes vai se manter por causa da oferta restrita, da redução do rebanho e da escassez de gado para abate."
Na mesma linha, o analista Hyberville Neto, da HN Agro, afirma que o cenário eleitoral poderá encontrar uma realidade bastante diferente daquela observada no início do atual governo. "Agora, com o ciclo pecuário em fase de contração da oferta e os preços reais da carne bovina acima da inflação, o corte que virou símbolo de acessibilidade pode se transformar em argumento oposto no debate eleitoral de 2026."
Comentários
Postar um comentário