Nestlé se une à OIT para estimular "recrutamento justo" em cafezais








Iniciativa pretende ‌fortalecer agências locais envolvidas na intermediação de mão de obra rural e elevar a proteção de trabalhadores no setor
Por Roberto Samora, da Reuters

 • Fernanda Pressinott

A Nestlé ampliou para o Brasil uma parceria com a Organização Internacional do ​Trabalho (OIT) voltada ao setor de café, com foco ​em "recrutamento justo" de trabalhadores nas lavouras pelos cafeicultores, disseram executivos da companhia e autoridades da agência da ONU, nesta quinta-feira.

O projeto no Brasil, que será implementado nos Estados da Bahia e do Espírito Santo, terá duração de dois anos e faz parte de uma expansão da parceria da Nestlé com a OIT para a América Latina, incluindo também Colômbia e México, após iniciativas anteriores em países ⁠asiáticos como Vietnã e Indonésia.

No Brasil, ​que responde por cerca de 30% do café consumido globalmente, o trabalho será ​concentrado nos dois importantes Estados produtores de grãos canéforas (robusta e conilon), variedade comumente usada na produção ⁠de café solúvel, como o clássico Nescafé. Espírito ⁠Santo e Bahia também produzem café arábica, embora em uma parcela menor ​comparativamente ‌ao canéfora.

O projeto buscará mapear corredores de migração de trabalhadores usados na atividade cafeeira, além de ⁠desenvolver estratégias com governos federal, estaduais e municipais, disse Rafael Costa, gerente jurídico da Nestlé Brasil.

"Temos obtido avanços, o nível de maturidade de respeito aos direitos trabalhistas está aumentando, mas reconhecemos que há alguns desafios ‌estruturais ⁠que ainda persistem, ‌por exemplo, o recrutamento justo e acesso limitado à proteção social de trabalhadores", afirmou.

Para lidar com a questão, disse ele, a Nestlé não pode trabalhar sozinha, e a tarefa demanda parceiros com expertise, ⁠como a OIT. "Por causa disso, decidimos expandir a nossa ⁠parceria de longo prazo com a OIT para a América Latina, especificamente para o Brasil."

Segundo o executivo, a iniciativa pretende ‌fortalecer agências locais envolvidas na intermediação de mão de obra rural e elevar a proteção de trabalhadores no setor. Executivos da Nestlé não comentaram sobre investimentos envolvidos.

A companhia afirma que já compra café certificado por terceiros independentes no Brasil, realiza visitas anuais a fazendas por meio de ‌equipes agrícolas e fornecedores, conduz verificações de conformidade e incentiva produtores ligados ao Nescafé Plan a divulgar canais de denúncia.


A necessidade de envolvimento da OIT, segundo os executivos, está ligada também ⁠à tentativa de atacar temas que vão além das práticas agrícolas ou da relação direta com fornecedores. A agência atua com normas internacionais do trabalho, diálogo social, segurança e saúde ocupacional, recrutamento justo, ​prevenção de trabalho forçado e fortalecimento institucional.

Andrea Davila, oficial técnica da OIT, disse que no Brasil o ​projeto terá três áreas complementares: promover processos de recrutamento mais transparentes e estruturados; melhorar a coordenação entre autoridades públicas, empregadores e organizações de trabalhadores; e desenvolver modelos que possam ser testados no café e eventualmente replicados em outras cadeias rurais.

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