De 36 para 18 meses: pecuária reduz pela metade idade de abate dos bovinos







Andressa Simão, da CNN Brasil, São Paulo

Números indicam que maior parte dos bovinos abatidos já chega aos frigoríficos antes dos três anos de idade

Redução da idade de abate tem impacto direto sobre a qualidade da carne • Serapiofilmes
A idade de abate dos bovinos no Brasil vem caindo nos últimos anos e, em sistemas mais tecnificados, os animais já são abatidos com 18 meses. A mudança é resultado da intensificação da produção, com investimentos em genética, nutrição, confinamento e integração lavoura-pecuária, além das exigências de mercados importadores como a China.

Dados da Famasul (Federação da Agricultura de Pecuária do Mato Grosso do Sul) referentes a abril de 2026 mostram que a redução da idade de abate já é uma realidade em parte importante do rebanho sul-mato-grossense.

Entre os machos abatidos no período, a maior concentração ocorreu nas categorias de 13 a 24 meses, com 72.106 animais, e de 25 a 36 meses, com 71.455 cabeças. Outros 20.941 bovinos tinham mais de 36 meses, enquanto 1.556 animais foram abatidos antes dos 12 meses de idade.

No caso das fêmeas, foram abatidas 59.785 cabeças entre 13 e 24 meses, 47.868 entre 25 e 36 meses e 62.300 com mais de 36 meses. O levantamento também registrou 710 fêmeas abatidas com menos de 12 meses.

Os números indicam que a maior parte dos bovinos abatidos no estado já chega aos frigoríficos antes dos três anos de idade, especialmente entre os machos, refletindo os avanços dos sistemas de produção mais intensivos.

Em Mato Grosso, a tendência é ainda mais evidente e os dados do Imea (Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária) mostram que, entre janeiro e abril de 2026, 44% dos bovinos abatidos no estado tinham até 24 meses de idade, o maior percentual da série histórica iniciada em 2006. Para efeito de comparação, no início do levantamento os animais abatidos com até dois anos representavam apenas 2% do total.

Dados apresentados pela Cargill, com base em um levantamento que reúne informações de mais de 11,7 milhões de bovinos avaliados ao longo de uma década, mostram que os animais estão entrando cada vez mais leves nos sistemas de terminação.

Segundo o estudo, o peso de entrada dos bovinos nos confinamentos brasileiros tem recuado, em média, 1 kg por ano nos últimos dez anos. Embora a redução pareça pequena, ela sinaliza uma mudança estrutural na produção de carne bovina nacional.

De acordo com Felipe Bortolotto, líder de tecnologias para bovinos de corte da Cargill, a tendência reflete um processo de antecipação do ciclo produtivo. Em vez de manter os animais por mais tempo nas fazendas, os pecuaristas têm buscado acelerar a terminação e aumentar o giro dos rebanhos.

“O que estamos observando é uma entrada cada vez mais precoce dos animais nos confinamentos. Isso está ligado à necessidade de produzir mais carne com o mesmo rebanho e melhorar os índices de desfrute da pecuária brasileira”, explicou.

A mudança foi destacada durante a APAS Show 2026 pelo diretor executivo de originação e confinamentos da Friboi, Eduardo Pedroso. Segundo ele, a redução do ciclo produtivo é uma das principais transformações da pecuária brasileira nas últimas décadas e tem contribuído para ampliar a competitividade do país no mercado global de carne bovina.

De acordo com Pedroso, a pecuária tradicional brasileira era baseada em sistemas extensivos, nos quais os animais ganhavam peso durante o período das chuvas e perdiam desempenho na estação seca. Esse modelo resultava em bovinos abatidos com idade superior a quatro anos.

Com a evolução dos sistemas de produção, especialmente por meio da integração lavoura-pecuária, do uso de genética melhorada, da suplementação nutricional e do confinamento, o ciclo foi encurtado significativamente.

"Hoje praticamente toda a produção da JBS está abaixo de 30 meses, caminhando para 20 meses", afirmou o executivo.

O movimento ganhou força principalmente após o aumento das exportações para a China. O mercado chinês passou a exigir animais com até 30 meses de idade para habilitação das plantas exportadoras, além de oferecer bonificações para bovinos mais jovens.

Segundo Bortolotto, a exigência estimulou os produtores a encurtarem os ciclos produtivos. “O pecuarista passou a girar mais rápido os animais para atender esse mercado. Isso fez com que mais bovinos fossem direcionados para o confinamento em idade mais jovem”, afirmou.

A medida foi adotada pelos chineses como forma de mitigação de riscos sanitários relacionados à encefalopatia espongiforme bovina (BSE), conhecida como doença da vaca louca.

Para atender a esse mercado, produtores passaram a investir mais intensamente em tecnologias que permitem acelerar o ganho de peso dos animais e reduzir a idade de abate sem comprometer o desempenho produtivo.

Além dos ganhos de eficiência, a redução da idade de abate tem impacto direto sobre a qualidade da carne ofertada ao consumidor.

Segundo Rodrigo Gomes, pesquisador da Embrapa Gado de Corte, animais abatidos mais jovens apresentam características valorizadas pelo mercado.

"O animal mais velho pode produzir uma carne mais dura, mais escura e com gordura mais amarela. Quando você intensifica a produção e reduz a idade de abate, a tendência é obter uma carne mais macia, com gordura mais clara e um aspecto visual melhor", destacou.

De acordo com o pesquisador, os sistemas de terminação intensiva utilizam dietas com maior concentração energética, favorecendo a deposição de gordura e melhorando atributos relacionados ao sabor e à suculência da carne.

"Em geral, a redução da idade de abate melhora a qualidade da carne. O animal consegue depositar mais gordura de forma adequada, o que contribui para uma melhor experiência de consumo", afirmou.

Apesar de entrarem mais leves no confinamento, os animais tendem a permanecer mais tempo nos cochos para atingir os pesos desejados de abate. Os dados da Cargill apontam que o período médio de confinamento também está aumentando gradualmente, em cerca de um dia por ano.

A expectativa é que essa tendência continue nos próximos anos. Atualmente, a média de permanência dos bovinos em confinamento gira em torno de 112 dias, mas pode avançar para patamares entre 120 e 150 dias. Nos Estados Unidos, principal referência mundial em confinamento, o período médio já varia entre 180 e 200 dias.

A redução da idade de abate também tem permitido ganhos importantes dentro das propriedades rurais. Com ciclos mais curtos, os produtores conseguem aumentar o número de animais terminados ao longo do ano utilizando a mesma área.

A Fazenda Rio Manso, localizada em Campo Verde (MT), é um exemplo desse modelo. A propriedade desenvolve atividades integradas de agricultura e pecuária, com 1.300 hectares de soja, mil hectares de milho, 1.030 hectares destinados à pecuária de corte e 200 hectares de eucalipto.

Segundo o proprietário da fazenda e presidente do Sindicato Rural de Campo Verde, Rodrigo Minuzzi, os animais já são abatidos aos 18 meses de idade, especialmente as novilhas terminadas em confinamento.

O sistema produtivo inclui IATF (inseminação artificial em tempo fixo), recria intensiva e engorda em confinamento, permitindo maior produtividade por hectare e melhor aproveitamento dos recursos da propriedade.

A redução da idade de abate ocorre em um momento em que o Brasil amplia sua participação no mercado global de carne bovina. A produção de carne bovina brasileira ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o maior produtor mundial de carne bovina, além de liderar as exportações globais há mais de uma década.

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