Brasil mira autossuficiência em grão-de-bico e lentilha







Fernanda Pressinott, da CNN Brasil, São Paulo
 • Imagem gerada por IA

Com apoio da Embrapa e pesquisas para adaptação, culturas buscam autossuficiência e alternativa para produtores agrícolas

O Brasil, tradicionalmente reconhecido como um dos maiores produtores e consumidores de feijão do mundo, está passando por uma transformação silenciosa em seu mercado de leguminosas. Além do tradicional arroz com feijão, produtores, pesquisadores e a indústria começam a direcionar atenção para culturas como grão-de-bico, lentilha e ervilha, em um movimento que pode reduzir a dependência das importações e abrir novas oportunidades de exportação.

A avaliação consta em relatório divulgado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que destaca o crescimento do mercado brasileiro de pulses — grupo que reúne leguminosas secas destinadas à alimentação humana, como feijões, lentilhas, ervilhas e grão-de-bico. Atualmente, embora o país seja autossuficiente na produção de feijão, ainda depende fortemente de importações para abastecer o mercado interno de outras leguminosas.

Produção nacional ganha força

Segundo o documento, o grão-de-bico é uma das culturas que mais despertam interesse entre os produtores brasileiros. A produção nacional ainda é pequena, mas vem crescendo em estados como Goiás, Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso e Distrito Federal.

O avanço é impulsionado principalmente pelo trabalho da Empraba, que desenvolveu variedades adaptadas às condições climáticas brasileiras. O objetivo é tornar a cultura mais produtiva e competitiva diante dos principais fornecedores internacionais.

Atualmente, o Brasil importa praticamente todo o grão-de-bico consumido no país, com destaque para fornecedores da Argentina e do México.

A lentilha segue cenário semelhante. A produção doméstica ainda é limitada e concentrada principalmente na região Sul, mas pesquisas buscam adaptar a cultura ao Cerrado por meio de sistemas irrigados. A expectativa do USDA é que a leguminosa se torne uma alternativa viável para rotação de culturas com soja e milho, agregando renda ao produtor durante a entressafra.

Mercado plant-based impulsiona ervilhas

Outro segmento em expansão é o da ervilha. Embora a área cultivada ainda seja pequena, o produto vem ganhando importância não apenas para consumo in natura ou industrialização, mas também como matéria-prima para alimentos à base de proteína vegetal.

O crescimento do setor de alimentos plant-based tem ampliado a demanda por ingredientes derivados de ervilhas, tendência observada em diversos mercados globais. O relatório aponta que essa demanda pode estimular novos investimentos na produção nacional nos próximos anos.

De importador a potencial exportador

Uma das conclusões mais relevantes do estudo é que o Brasil começa a trabalhar para deixar de ser apenas um comprador de pulses e se posicionar futuramente como exportador.

"O país está expandindo a produção doméstica com o objetivo de alcançar autossuficiência e competir nos mercados internacionais em um futuro próximo", destaca o documento.

O movimento ocorre em um momento de crescimento das exportações brasileiras de leguminosas. Em 2025, as vendas externas do setor aumentaram 30% em relação ao ano anterior, alcançando US$ 443,3 milhões e mais de 533 mil toneladas exportadas.

Grande parte desse crescimento foi impulsionada por variedades pouco consumidas internamente, como o feijão-mungo, cuja demanda é fortemente puxada pelo mercado indiano.

O paradoxo do feijão

Enquanto novas leguminosas ganham espaço, o tradicional feijão enfrenta um desafio preocupante: a queda no consumo.

Dados citados pelo relatório reforçam o que a Companhia Nacional de Abastecimento já divulgou, que o consumo per capita de feijão no Brasil caiu cerca de 50% nas últimas décadas. Se nas décadas de 1960 e 1970 cada brasileiro consumia, em média, 23 quilos por ano, atualmente esse volume está entre 12 e 13 quilos anuais.

Entre os fatores apontados para essa redução estão as mudanças nos hábitos de vida da população, a diminuição do tempo disponível para cozinhar, o aumento das refeições fora de casa e o crescimento do consumo de alimentos industrializados e ultraprocessados.

Apesar disso, arroz e feijão continuam sendo pilares da alimentação brasileira e permanecem entre os alimentos mais consumidos do país, desempenhando papel fundamental na segurança alimentar nacional.

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