AmbiÁlcool produz etanol a partir de resíduos alimentares









Maria Julia Blanes, da CNN Brasil*, em São Paulo
 • Divulgação/Ambipar
*Sob supervisão de Luciana Franco

O aumento da demanda por produtos como o álcool em gel durante a pandemia de Covid-19, período em que houve episódios de “sobrepreço” em diferentes regiões do Brasil, fez com que algumas empresas buscassem soluções para ficar menos dependentes de matérias-primas tradicionais, como a cana-de-açúcar.

Essa necessidade associada ao aumento do consumo de alimentos industrializados — e, consequentemente, da geração de resíduos orgânicos — foi a base para um projeto inovador: a.produção de etanol a partir de resíduos da indústria alimentícia.

Em entrevista ao CNN Agro, o diretor de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Ambipar, Gabriel Estevam, explicou que a iniciativa AmbiÁlcool teve início a partir do desenvolvimento de álcool comum para uso em limpeza e higienização.

A partir daí, a pesquisa evoluiu para a possibilidade de uso de resíduos da indústria alimentícia como matéria-prima para a produção de etanol.

“Começamos a olhar para essas matrizes ricas em açúcar e amido, como balas, doces, restos de pães, chocolates, refrigerantes e sucos, e iniciamos um processo piloto”, afirmou.

Segundo o executivo, o projeto passou por uma fase intensa de testes, homologações e validação de qualidade, marcada por uma forte curva de aprendizado.

Na metade de 2025, a empresa avançou para a etapa final de desenvolvimento e iniciou o uso do novo combustível, apresentado como uma alternativa ao etanol produzido a partir da cana-de-açúcar e do milho, hoje predominantes na matriz energética brasileira.
Facilidade de acesso à matéria-prima

Questionado sobre a disponibilidade de insumos para o projeto, o diretor explicou que a atuação da empresa na gestão de resíduos industriais facilita o acesso à matéria-prima necessária.

“Nós temos grandes contratos tanto com a indústria de alimentos quanto com a indústria de bebidas. Fazemos toda a logística da coleta, seja dentro da própria indústria ou no pós-consumo”, afirmou.

Segundo ele, o modelo se apoia em uma cadeia de economia circular, que inclui não apenas resíduos alimentares, mas também o descarte adequado de embalagens.

“É um projeto verde de ponta a ponta”, disse, ao explicar que os materiais são mantidos em circulação pelo maior tempo possível.

O executivo destacou ainda que o sistema traz benefícios diretos aos geradores de resíduos, tanto na redução de custos de descarte quanto na geração de créditos de carbono reportados em relatórios de sustentabilidade.




“Antes, esses resíduos tinham como destino a compostagem, aterros sanitários ou até a incineração, que são soluções caras e de alta complexidade logística”, afirmou.
Do combustível à perfumaria: múltiplos usos e expansão do mercado

Embora ainda pouco conhecido pelo consumidor final, o etanol produzido a partir de resíduos já começa a chegar a diferentes mercados, como combustíveis, produtos de limpeza e perfumaria.

Segundo o Estevam, a estratégia atual não está centrada apenas na venda direta do combustível, mas na estruturação de uma cadeia de distribuição mais ampla.

“Nós pensamos em plugar isso de uma forma que a legislação permita a venda direta, ou seja, que a unidade produtora possa vender diretamente para postos de combustíveis”, disse.

Neste contexto, a empresa já opera um posto em Nova Odessa (SP), utilizado para abastecimento da frota interna e para redução parcial do uso de combustíveis fósseis.

“A nossa ideia é expandir. Apenas uma parte da produção vai para o posto; o restante é destinado a outras finalidades, como álcool de limpeza, perfumaria ou etanol neutro”, explicou.

Além da sustentabilidade, o executivo destacou a competitividade do produto em termos de preço.

“O valor do etanol de resíduos industriais é muito competitivo. A economia no processo de produção, especialmente na gestão de resíduos, reduz custos e torna o produto final mais atrativo”, afirmou.

Segundo ele, o preço final tende a se manter próximo ao praticado nos postos, com variações conforme margens aplicadas pelos distribuidores.

O diretor também mencionou indicadores de produtividade em diferentes rotas de produção. Enquanto o etanol de cana-de-açúcar gera cerca de 80 litros por tonelada e o milho alcança aproximadamente 380 litros, o etanol produzido a partir de resíduos alimentares pode chegar a 400 litros por tonelada em condições específicas.

No segundo semestre de 2025, o projeto atingiu cerca de 600 toneladas mensais de resíduos disponíveis para processamento, resultando em uma produção aproximada de 250 mil litros do novo etanol.

“O etanol é um legado. É algo que o Brasil precisa explorar ainda mais, especialmente com novas matrizes”, diz o diretor.
Estruturas do setor e concorrência no mercado de combustível

O executivo também destacou a viabilidade de o Brasil avançar na expansão de novas rotas de produção de etanol, ampliando a competitividade frente aos modelos já consolidados no país.

“Somos um dos maiores produtores de alimentos do mundo, de alimentos industrializados também. Isso representa quase 10% do PIB. Então temos um cenário favorável e uma legislação que favorece o setor”, diz.


Apesar do ambiente favorável, o executivo reconhece que a concorrência ainda é um desafio para iniciativas em fase de consolidação e pouco conhecidas pelo grande público.

“Com a disposição e descentralização trazidas por esse projeto, as empresas vão começar a olhar mais. A tendência é que isso ganhe escala e surjam novas oportunidades em outros estados, embora a produção de etanol ainda esteja muito concentrada em São Paulo, puxada pela cana-de-açúcar”, disse.


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