
Montadoras apresentam máquinas a etanol, biometano, gás natural, energia elétrica, hidrogênio e mais soluções em busca de máquinas menos poluentes
A descarbonização das máquinas agrícolas começou a ganhar espaço, mas o cenário apresentado pelas fabricantes ainda está longe de indicar uma rota única para o setor. Em vez de consenso, o que apareceu na feira da Agrishow foi uma multiplicidade de estratégias — etanol, biometano, gás natural, hidrogênio, eletrificação e diesel renovável — em diferentes estágios de maturidade tecnológica e comercial.
Boa parte das soluções exibidas é ainda apenas um conceito, e uma parte menor segue em fase de testes, validação de durabilidade e análise de viabilidade operacional. As empresas reconhecem que o desafio não está apenas em desenvolver motores menos emissores, mas em adaptá-los às exigências do campo, onde potência contínua, autonomia e disponibilidade de abastecimento têm peso decisivo.
A avaliação predominante entre executivos ouvidos durante a feira é que a transição energética das máquinas agrícolas deve ocorrer de forma gradual e regionalizada, acompanhando as características da matriz energética de cada país.
Mas mais do que isso, as empresas reconhecem que as alternativas mais sustentáveis são o futuro e que ainda há uma etapa extensa de validação técnica antes de uma adoção em escala. E todas parecem querer alcançar antes a linha de chegada.
Etanol
Entre as alternativas apresentadas na Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), o etanol apareceu como uma das apostas mais alinhadas ao contexto brasileiro, especialmente pela proximidade com o setor sucroenergético e de grãos e pela infraestrutura já existente de produção e distribuição do combustível.
A fabricante de motores FPT Industrial, do grupo Iveco, por exemplo, decidiu investir em motores desenvolvidos especificamente para operar com etanol em aplicações agrícolas pesadas.
“Quando analisamos a matriz energética brasileira, a abundância de combustíveis e principalmente no agronegócio, fica muito claro que o etanol vai ter um protagonismo muito forte no Brasil nos próximos anos”, disse Bernardo Brandão, presidente da empresa para a América Latina.
“O etanol é, sem dúvida, hoje, o óleo biocombustível com a menor pegada de carbono que nós temos, pode reduzir até 90% as emissões. Então, o agro pode ter um papel fantástico na descarbonização com a adoção dessa tecnologia”, disse.
Brandão explicou que a mudança, contudo, envolve uma ruptura tecnológica relevante em relação aos motores diesel tradicionalmente utilizados no agro. Motores ciclo Otto exigem outra arquitetura de funcionamento, incluindo sistemas de ignição inexistentes em motores diesel, o que provoca uma camada adicional de dificuldade para o desenvolvimento das tecnologias.
Os motores apresentados pela FPT já estão sendo testados em tratores, colheitadeiras e pás-carregadeiras da Case IH, Case Construction e outras empresas. Segundo a FPT, os equipamentos devem permanecer ao menos duas safras em avaliação antes de qualquer decisão comercial mais ampla.
Ao mesmo tempo, a companhia deixou claro que não vê o etanol como solução exclusiva. AFPT mantém investimentos paralelos em gás natural, biometano e eletrificação.
Durante a Agrishow, anunciou a ampliação de seu plano de investimentos na América Latina de R$ 130 milhões para R$ 250 milhões até 2028.
Em fase de testes
Na prática, a principal discussão técnica entre as fabricantes ainda gira em torno da validação operacional das novas tecnologias.
A Case IH apresentou uma colheitadeira e um trator movidos a etanol em operação experimental. Segundo Nilson Righi, gerente de Marketing Tático da empresa, os equipamentos já passaram por ciclos de safra sem interrupções relevantes.
A colheitadeira de duas linhas operou durante toda a safra passada, enquanto o trator acumulou cerca de 800 horas de trabalho. Os resultados iniciais, segundo a empresa, indicam desempenho próximo das metas estabelecidas de potência, torque e consumo. Ainda assim, os testes continuam.
“Os testes têm sido satisfatórios e nos conduzem a continuar os trabalhos na safra deste ano. Mas tem que comprovar a durabilidade e vida útil do motor”, afirmou Righi.
O próprio cronograma adotado pelas fabricantes mostra que a preocupação central ainda não é apenas eficiência energética, mas resistência operacional em condições severas de trabalho agrícola.
A discussão é especialmente relevante porque máquinas agrícolas trabalham sob cargas elevadas e longos períodos contínuos de operação, cenário diferente do mercado automotivo, onde o etanol já está consolidado há décadas.
Outro ponto levantado pelas empresas é que a adoção dessas tecnologias depende também do perfil de uso e disponibilidade de matéria-prima para os combustíveis. A pá-carregadeira movida a etanol apresentada pela Case Construction, por exemplo, foi pensada para usinas sucroenergéticas, onde o combustível já faz parte da operação cotidiana.
Nesse caso, a lógica econômica está associada não apenas à redução de emissões, mas à integração energética dentro da própria usina.
Biometano
Se o etanol ainda está em fase de validação mais intensa, o biometano apareceu, pelo menos na Valtra, como uma solução mais próxima. A empresa afirmou já ter acumulado mais de 20 mil horas de operação com máquinas movidas a biometano em testes de campo.
Segundo Marcelo Traldi, vice-presidente da Valtra e Fendt para a América Latina, o lançamento comercial deve ocorrer em 2027. Já o trator a etanol, com mais de 10 mil horas de teste acumuladas, no ano-safra 2028/29.
A estratégia da AGCO, grupo que controla Valtra, Massey Ferguson e Fendt, indica uma abordagem diversificada. Enquanto a Valtra trabalha simultaneamente com etanol e biometano, a Massey Ferguson informou desenvolver tratores movidos a etanol na faixa de 200 a 300 cavalos e também realiza testes com metano.
Já a Fendt destacou soluções que já chegaram ao mercado europeu, como tratores elétricos e modelos compatíveis com diesel renovável. Ainda assim, a empresa reconhece que a expansão dessas tecnologias para o Brasil depende de fatores externos, especialmente infraestrutura energética.
“Vamos entender como está a demanda e ver a possibilidade de áreas remotas terem recarga”, segundo a Fendt. A eletrificação, embora presente nas discussões globais, apareceu na feira mais associada ao contexto europeu do que à realidade imediata do campo brasileiro.
Hidrogênio
A JCB afirmou apostar em motores a combustão movidos a hidrogênio em vez da eletrificação por baterias para máquinas pesadas. Segundo Adriano Merigli, presidente da companhia, o peso das baterias e a necessidade de operação contínua dificultam a adoção de máquinas totalmente elétricas em determinadas aplicações agrícolas e de construção.
A fabricante informou que já iniciou comercialização de equipamentos a hidrogênio na Europa, mas reconheceu que a infraestrutura de abastecimento ainda é um entrave mesmo em mercados mais avançados.
“Nós ainda não resolvemos a questão do hidrogênio nem mesmo na Europa”, afirmou.
No Brasil, a empresa mantém estudos em parceria com universidades e empresas para avaliar a viabilidade da tecnologia.
Assim, sem uma definição clara sobre qual tecnologia deve prevalecer, o setor avança hoje em múltiplas rotas simultaneamente. E, ao menos por enquanto, a estratégia das fabricantes parece menos ligada à substituição imediata do diesel e mais à construção gradual de alternativas capazes de operar dentro da realidade do campo brasileiro. E, claro, em ser a primeira fabricante a trazer a novidade.
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